Duas pessoas podem receber o mesmo diagnóstico e apresentar experiências muito diferentes.
Enquanto uma consegue manter suas atividades habituais com poucas dificuldades, outra pode enfrentar limitações importantes para trabalhar, realizar tarefas domésticas ou participar de situações do cotidiano.
Isso acontece porque o diagnóstico, embora fundamental para compreender uma condição de saúde, não revela, isoladamente, todas as suas repercussões na vida de uma pessoa.
É nesse contexto que a avaliação funcional ganha importância.
O diagnóstico é importante, mas não explica tudo
O diagnóstico permite identificar uma doença ou condição de saúde e orientar decisões clínicas.
Entretanto, conhecer o nome de uma condição não significa compreender automaticamente como ela afeta o funcionamento de uma pessoa.
Imagine duas pessoas com o mesmo diagnóstico de artrose no joelho.
Uma delas consegue realizar suas atividades com relativa independência. A outra apresenta dificuldades para caminhar, subir escadas, permanecer em pé por períodos prolongados ou executar determinadas tarefas profissionais.
Embora compartilhem o mesmo diagnóstico, suas condições funcionais podem ser diferentes.
Essas diferenças dependem de diversos fatores, como a intensidade das alterações, as capacidades preservadas, as características individuais, as exigências das atividades e as condições do ambiente.
Por isso, a avaliação precisa considerar não apenas qual condição de saúde a pessoa apresenta, mas também como ela repercute em sua vida.
O que é uma avaliação funcional?
A avaliação funcional é um processo de investigação das capacidades, dificuldades e limitações de uma pessoa para realizar atividades e participar de diferentes situações da vida cotidiana.
Na avaliação físico-funcional, são considerados aspectos relacionados ao movimento, à força muscular, à mobilidade, à resistência física, à coordenação e a outras funções relevantes, de acordo com a necessidade de cada caso.
Entretanto, o processo não se resume à realização de testes físicos.
Também pode envolver a análise da documentação de saúde, a escuta do relato da pessoa, a observação de atividades, a utilização de instrumentos específicos e a investigação das condições em que determinadas dificuldades acontecem.
O objetivo é construir uma compreensão fundamentada da funcionalidade, considerando tanto as capacidades preservadas quanto as limitações identificadas.
É importante que as informações relatadas sejam analisadas em conjunto com os achados da avaliação e os demais elementos disponíveis, respeitando as características de cada situação.
A funcionalidade depende também do contexto
Uma pessoa pode apresentar determinada capacidade em um ambiente e encontrar dificuldades para realizar a mesma atividade em outro.
Considere alguém que consegue caminhar pequenas distâncias em um ambiente plano, mas enfrenta dificuldades quando precisa percorrer trajetos longos, utilizar escadas ou transportar objetos.
Da mesma forma, uma atividade profissional pode se tornar mais exigente dependendo do ritmo de trabalho, das ferramentas disponíveis, das condições ambientais e das possibilidades de adaptação.
Isso demonstra que a funcionalidade não depende apenas das condições do corpo.
Ela resulta também da interação entre as características da pessoa, as atividades que precisa realizar e o ambiente em que está inserida.
Compreender essa interação é essencial para que a avaliação represente, de maneira mais adequada, a realidade vivenciada.
O que a CIF tem a ver com a avaliação funcional?
A Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF), desenvolvida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), oferece uma estrutura para compreender e descrever a funcionalidade humana.
Diferentemente de uma classificação voltada à identificação de doenças, a CIF considera diferentes dimensões da saúde e do funcionamento das pessoas.
Entre elas estão:
• Funções e estruturas do corpo: alterações e capacidades relacionadas ao funcionamento físico e mental.
• Atividades: capacidade de executar tarefas e ações do cotidiano.
• Participação: envolvimento em situações da vida, como trabalho, educação e convivência social.
• Fatores ambientais: condições que podem facilitar ou dificultar a realização de atividades e a participação.
A CIF também reconhece a influência dos fatores pessoais, como experiências e características individuais, na relação entre saúde e funcionalidade.
Essa abordagem amplia a compreensão da pessoa para além da doença e favorece uma linguagem técnica compartilhada entre diferentes profissionais.
Por que a avaliação funcional pode ser importante?
Uma avaliação funcional bem fundamentada permite identificar dificuldades que nem sempre estão claramente descritas nos exames ou nos documentos relacionados ao diagnóstico.
Seus resultados podem contribuir para o planejamento de intervenções, a identificação de necessidades de adaptação, o acompanhamento da evolução funcional e a compreensão das repercussões de uma condição de saúde sobre as atividades habituais.
Em situações relacionadas ao trabalho, por exemplo, a avaliação pode fornecer informações relevantes sobre as exigências de determinadas tarefas e as capacidades funcionais apresentadas pela pessoa.
Também pode subsidiar análises técnicas em contextos administrativos ou judiciais, observadas as exigências e competências aplicáveis a cada situação.
É importante destacar que a avaliação funcional não substitui o diagnóstico médico nem representa, por si só, o reconhecimento de incapacidade laboral, deficiência ou direito a benefícios.
Sua contribuição está na produção de informações técnicas que podem complementar outros elementos necessários à análise de cada caso.
Avaliar a funcionalidade é compreender a pessoa em sua realidade
Uma condição de saúde não deve ser analisada apenas pelo nome que recebe ou pelas alterações identificadas em exames.
As capacidades preservadas, as dificuldades para realizar atividades, as condições ambientais e as repercussões sobre a participação também fazem parte dessa compreensão.
É justamente essa perspectiva que torna a avaliação funcional relevante.
Mais do que identificar limitações, trata-se de compreender como a pessoa funciona em seu cotidiano, quais fatores interferem em suas atividades e quais informações são necessárias para fundamentar decisões.
O diagnóstico ajuda a compreender a condição de saúde. A avaliação funcional amplia esse olhar para a realidade da pessoa.
Como a Ergoplace pode contribuir?
A Ergoplace – Saúde, Funcionalidade e Trabalho atua na avaliação físico-funcional e na análise das repercussões de condições de saúde sobre as atividades cotidianas, a participação e o trabalho.
Por meio de avaliações individualizadas e análises técnicas fundamentadas, contribui para uma compreensão mais ampla da funcionalidade, respeitando as particularidades e as necessidades de cada situação.
Conheça nossa atuação em Avaliação Funcional e Fisioterapia Forense.
www.ergoplace.com.br
Autoria: Gracielle Parrella Rodrigues Silveira
Fisioterapeuta do Trabalho | Ergonomista | Fisioterapeuta Forense
Referências técnicas
• Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF). Disponível em: https://icd.who.int/browse/2024-01/mms/en#495385259
• Brasil. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.html
• COFFITO. Resolução nº 370, de 6 de novembro de 2009. Dispõe sobre a adoção da CIF pelos fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais. Disponível em: https://www.coffito.gov.br/nsite/?p=3134
• Ministério da Saúde. Manual de prevenção de incapacidades. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_prevencao_incapacidades.pdf